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CONHEÇA-ME UM POUCO MELHOR


Onde nasceu, Teresa, quando, como foi a sua infância e como era a sua família?

Eu nasci em Lisboa, no dia 27 de Janeiro de 1952, às 10.50 da noite. Fui a terceira de seis filhos, nascida de mãe portuguesa e pai inglês. Nasci em casa, na Rua dos Lusíadas. Nessa altura muitas mães mais conservadoras ainda tinham os seus filhos dessa maneira, e a minha mãe teve os primeiros quatro filhos em casa, à moda antiga. Só os dois mais novos é que já foram nascer à maternidade. Mas é engraçado que eu penso que terei sido feita em Tânger, porque no ano anterior os meus pais foram lá passar as férias da Páscoa. Quanto à minha infância, eu acho que foi uma infância feliz, sim. Os meus pais eram pessoas conservadoras, mas isso era uma coisa de que eu nem sequer tinha consciência. As pessoas que eu conhecia eram todas assim. Desconfio que a maioria deles seriam talvez apoiantes do Antigo Regime. Os meus pais por acaso nem por isso. Nessa altura o meu pai era um homem rico. E foi, até 1968. Não muito rico, mas o suficiente para não precisar do Governo para coisa nenhuma. Nunca andou a lamber as botas ao Salazar, como outros faziam. O meu pai era um homem que nem tinha feitio para isso, nem precisava da política para nada, nem tinha nenhum interesse, nem paciência, para ocupar cargos políticos. O único cargo institucional que ele alguma vez ocupou foi o de Conselheiro da Câmara de Comércio Luso-Britânica. E também foi o primeiro Tesoureiro Geral do Lyons Club de Portugal. Foi ele que criou o primeiro banco de óculos do Lyons Club, e que organizou as primeiras festas dos Lyons, no Jardim Zoológico de Lisboa. Foi assim que aí pelos meus doze anos conheci o Júlio Iglésias, a Amália, a Simone de Oliveira, o António Calvário, a Madalena Iglésias e muitos outros. Com as receitas que se apuraram dessas festas pagaram-se muitas operações aos olhos em Barcelona a pessoas que de outra forma teriam provavelmente cegado. Mas o meu Pai fazia essas coisas porque isso estava na sua natureza, nunca quis receber elogios nem apreciava honrarias. Inclusivamente chegaram a oferecer-lhe um cargo no Corpo Consular, e ele não aceitou. Este convite foi-lhe dirigido por um país pouco estável politicamente, e o meu pai não era pessoa para se meter em confusões. E no entanto não era um simpatizante do Salazar. O meu Pai era aquilo a que se pode chamar um fidalgo à moda antiga, por isso nunca podia ser um apoiante do Estado Novo, porque o Salazar era Monárquico, isso é uma coisa que toda a gente sabe, mas eu julgo que ele nem sequer sabia muito bem o que isso significava na sua génese mais profunda. O Salazar era um homem sem um mínimo de grandeza interior, e o meu pai sentia isso e desprezava-o profundamente. Aliás eu lembro-me de lá em casa os meus pais o criticarem, mas era engraçado que os meus pais faziam isso de uma maneira velada, não era para nós percebermos; e se eles baixavam a voz não era por mais nada, julgo eu, porque eles nunca tiveram problemas com a PIDE, nem nada, devia ser só porque achavam que nós éramos muito pequenos para perceber certas coisas. Mas com tudo isto não sou uma Tia. Deo Gratias! Essa foi uma luta que não foi fácil. Travei-a sobretudo no seio da minha própria família, e venci. Eles têm mesmo de me aceitar como eu sou. Não gostam muito, mas não têm outro remédio.


A seguir foi para a Escola…

Aos cinco anos fui para a Escola “Ave-Maria”, que era ali a 50 metros de casa, e era dirigida por uma senhora que o meu pai conhecia desde miúdo, e em quem depositava a confiança mais completa e absoluta. Da janela da minha sala de aula vi construir, dia após dia, a Ponte sobre o Tejo.

Já agora gostava de contar que em 1998 fui encarregue de fazer um livro de homenagem à Minhana, livro esse que foi prefaciado pelo Prof. Diogo Freitas do Amaral, que foi um dos primeiros alunos da Escola, levou na capa um desenho do Luís Pinto Coelho, e que conta com os depoimentos de vários membros da nossa actual classe política e de muitos outros antigos alunos, alguns deles actuais celebridades. As pessoas que conheceram a Minhana sabem bem o que significa ter sido escolhida para fazer este livro.

Eu aprendi a ler sozinha, nos pacotes de batatas fritas e nos letreiros dos carros eléctricos, e depois nos livros da Condessa de Ségur. Depois na minha segunda classe tive uma professora chamada Lena que era uma rapariga encantadora e muito bonita que transbordava alegria por todos os poros, e era uma professora extraordinária que nos lia histórias de florestas encantadas com duendes que viviam dentro de cogumelos... Aquilo para mim era um verdadeiro deslumbramento, e penso mesmo que foi por essa altura que parti para a grande viagem na minha vida. Eu gostava mesmo era de ouvir contar histórias, e quem sabe, de escrevê-las também. Comecei a dar tudo de mim à escrita das minhas redacções. A seguir rendi-me por completo à Enid Blyton, que hoje em dia está muito mal vista, é considerada uma escritora “politicamente incorrecta”, e se calhar com razão, porque ela era de facto bastante elitista, e racista, e sexista, mas naquele tempo as pessoas não viam muito esses aspectos. Aqueles quatro miúdos e o Tim foram os grandes heróis da minha infância.
 
E depois? Foi boa aluna?


Nem por isso. Entretanto lá para os onze, doze anos, comecei a interessar-me pela Literatura de uma forma mais séria. Eu digo isto porque chegava o mês de Outubro, começavam as aulas e a primeira coisa que eu fazia era “devorar” a Selecta Literária de uma ponta à outra. Eu embebedava-me daquilo. No 1º Ano do Liceu tive uma professora de Português que tinha conhecido muito bem o Sebastião da Gama, e falava-nos sobre ele, e sobre a Serra da Arrábida, e essas coisas marcam... Chamava-se Fátima. Foi a primeira pessoa que me disse que existiam em mim qualidades que com o tempo poderiam levar-me a escrever coisas realmente especiais. Se ela não me tivesse escrito uma vez essas palavras, a tinta verde, no meu caderno diário, talvez eu hoje tivesse outra profissão qualquer. Escrevo isto na esperança de que um dia, por um bambúrrio de sorte, talvez ela e venha a ler estas linhas, e contacte comigo. Mas a partir daí nunca mais consegui ter uma professora de Português que descobrisse em mim algum talento e me apoiasse seriamente. Talvez porque nunca fui uma aluna muito estudiosa. Fui a cábula mais descarada que já se viu por aí! Era uma vergonha!

Entretanto andei pelos Colégios das Irmãs de S. José de Cluny, excelentes educadoras de quem guardo as melhores recordações.

Tive uma amiga que me ensinou a tirar os primeiros acordes de uma guitarra, e isso abriu os meus horizontes para a música. Entretanto passava as férias em Sezimbra e aí dava-me muito com um primo chamado Miguel que tinha um talento imenso para a pintura, que me deixava completamente vidrada. Meu Querido Miguel, que já não é deste mundo.

Também fui aluna de grandes mestres que me ensinaram muito, no IADE, no Conservatório, na Escola Superior de Turismo, na Faculdade, durante a Pós Graduação em Oxford, mas tudo isto só aconteceu alguns anos mais tarde.

Aí pelos meus catorze anos conheci uma rapariga chamada Helena Perfeito, que infelizmente também já não está entre nós, mas foi uma pessoa que me marcou de uma maneira que eu não saberei descrever, e ainda hoje eu considero que tenho para com ela uma dívida de gratidão do tamanho do mundo. Foi ela que virou em definitivo o leme da minha vida, porque me revelou um universo que eu até aí praticamente não conhecia, ou conhecia muito mal. Foi ela que me explicou como era importante ler, mas ler muito, ver exposições, ir ao teatro, a concertos, ao lançamento de livros… e esse ensinamento é uma coisa que não tem preço, porque tudo na nossa vida passa a ter outro significado. Foi ela que me apresentou ao Ary dos Santos, um poeta hoje tão injustamente esquecido, ao Almada Negreiros, uma tarde, na Brasileira do Chiado, à Eunice Munõz e a outros mais.

A pluridimensionalidade da Arte foi uma das descobertas mais importantes da minha juventude. Foi isso e foi perceber que tinha o direito de pensar pela minha própria cabeça. Sou livre pensadora desde os meus quinze anos e tenho nisso o maior orgulho.

Com isto… comecei a escrever aí pelos meus doze, treze anos, assim umas coisas patetas, próprias da idade, de que não guardei cópias, felizmente. Por volta dos meus dezasseis, dezassete anos, escrevi o meu primeiro livro, que foi a Rapsódia em Technicolor. E levei anos e anos a mandar esse meu primeiro original para as editoras, que mo recusaram umas atrás das outras. Às vezes só ao fim de um ano é que o recebia de volta. Ainda tenho as cartas, algumas delas de uma estupidez inacreditável. Porque acontecia que este livro estava talvez um tanto adiantado para o seu tempo, como aliás tudo o que me tem acontecido na vida. Eu julgo que tenho andado a vida toda a correr à frente do tempo. Pois se eu ainda hoje às vezes faço engasgar o computador, porque escrevo mais depressa do que ele... eu não tenho culpa, eu acho que a minha mãe deve ter levado algum choque eléctrico quando estava grávida de mim... bom, mas voltando ao livro, mais tarde acabou por ser premiado. Como as coisas são! Agora o primeiro passo é sempre muito difícil. Sobretudo quando se está completamente por fora da engrenagem.

Começou então a sua carreira de escritora, foi isso?

Sim, mas só aos trinta e tal anos é que tive a minha primeira oportunidade de publicação, e hei-de ser sempre grata ao Leonardo de Freitas, da Escritor, que foi o primeiro editor que decidiu acreditar e apostar em mim. Depois foi preciso que as minhas obras começassem a ser premiadas para conseguir começar a publicar a bom ritmo. A Maria Benta, que foi o meu terceiro livro, andou em mais de trinta editoras diferentes. Ninguém o quiz. Eu acho que os indivíduos que estão em certas editoras nem sequer se dão ao trabalho de ler os originais que lhes vão parar às mãos. De repente a Maria Benta ganhou o Prémio Literário 25 de Abril, a seguir ganhou também o Prémio Literário Cidade da Amadora, que já é um prémio de algum prestígio, e aí já toda a gente o queria, mas eu entendi que não. Editora que já me tenha recusado um livro, eu tomo isso como uma afronta pessoal, e uma afronta grave. Fiz então uma edição de autor, a Câmara da Amadora comprou-me uns poucos de exemplares, a Gulbenkian comprou-me outros tantos para as bibliotecas itinerantes, e foi assim que paguei as despesas de edição, sem precisar de ceder aos caprichos dos editores.

É de facto muito difícil publicar em Portugal, por isso eu registei a minha própria chancela, e durante algum tempo publiquei os meus próprios livros. Não posso dizer que ganhei dinheiro, mas pelo menos também não perdi. Foi a única forma que encontrei de furar o esquema perfeitamente sinistro das máfias dos hipermercados, a exigirem percentagens que são absolutas imoralidades. Está bem que eles têm de ter a sua margem de lucro, eu compreendo isso muito bem, mas 60%?  Deviam ser todos presos! E há em Portugal um Ministério da Cultura, dizem. Qualquer dia o Zé Cabra também chega a Ministro da Cultura, acho eu. Pior do que está não pode ficar. Por isso eu vou escrevendo, depois espero tranquilamente que as minhas obras sejam premiadas, quando isso acontece faço a minha própria edição, as Câmaras Municipais acabam geralmente por comprar umas centenas de exemplares, eu pela minha parte faço também um bom lançamento, ofereço às pessoas um recital de poesia, ou de música, ou outra coisa assim bonita, e mais ou menos lá vou conseguindo vender os meus livros. Com um bocadinho de imaginação consigo esgotar a edição sem perder muito dinheiro.

Mas eu não comecei por me entregar à escrita. Andei um pouco a tactear o meu caminho, porque eu sabia que tinha nascido para as Artes, mas as Artes podem ser tantas coisas diferentes... eu gostava de Literatura, mas também gostava de Teatro, e de Pintura, e de tantas outras coisas... eu hoje não me arrependo nada de ter feito a minha opção pela Literatura, que é de facto aquilo para que nasci, eu hoje não tenho a menor dúvida a esse respeito, mas naquela altura entendi que me seria útil tentar primeiro aprofundar também outras formas de Arte, e penso ter feito um percurso acertado, até porque isso hoje se reflecte de uma forma muito mais rica naquilo que escrevo. E voltamos à Arte pluridimensional.

Eu explico melhor. Eu penso que se não gostasse de Cinema, e de Teatro, e de Música, e de Pintura, e até de Moda e de Publicidade, e se não tentasse todos os dias aprofundar um pouco mais os meus conhecimentos nessas áreas, eu não passaria hoje de uma escritora medíocre. Porque as Artes complementam-se. Se um determinado músico gostar também de poesia, e conseguir enriquecer a sua música através daquilo que a Poesia lhe vai também ensinando, ele é com certeza muito melhor músico, e um músico muito mais completo, e muito mais rico na sua produção artística, porque tem muito mais fontes de inspiração onde pode ir beber, e isso forçosamente terá de se reflectir na qualidade da sua obra.

Portanto eu não me interessei só pela Literatura, e ainda bem que assim foi, porque acabei por fazer o meu percurso com muito mais segurança. Comecei por me matricular no IADE, fui aluna do Tomás Ribas, do Eurico Lisboa, do António Quadros, e até do Mestre Lima de Freitas, que era um homem verdadeiramente brilhante que me deixou memórias extraordinárias que o tempo não há-de apagar nunca.

Depois achei que aquilo era um curso destinado a formar futuros decoradores, e não era esse o caminho que eu queria seguir. Para ser decorador é preciso ter muita paciência para aturar novos-ricos e gente possidónia, e eu não tenho dois gramas que sejam de paciência para aturar essa gente. Era o que me faltava, andar agora a aturar birrinhas a dondocas parvas!

Transitei depois para o Conservatório de Teatro, mas se por um lado o meu amor pelo Teatro era de facto muito forte, e completamente genuíno, por outro eu não tinha um pingo de talento que fosse para a arte de representar, para além de que sou asmática, tenho dificuldades de respiração, isso até se nota na minha escrita, ao nível da pontuação, pelo que uma carreira de actriz me estava automaticamente vedada, mas houve uma pessoa que me abriu as portas do Conservatório, e me admitiu no exame, que foi a extraordinária Luzia Maria Martins. Ela deve ter percebido muito bem que eu jamais poderia ser uma boa actriz, mas não me disse nada. Ela era uma mulher muito inteligente e muito generosa, e deixou que fosse eu a descobrir por mim própria, e ainda bem que assim foi. Fui então aluna do Álvaro Benamor, do Bernardo Santareno, da Maria Germana Tânger, da Águeda Sena, do João Mota, e ainda hoje tenho por todos eles um profundo sentimento de carinho, respeito e gratidão. São grandes nomes que deram muito ao teatro português.
 
Bom, e em paralelo ao gosto pelas Artes, não teve também alguns amores?

Tive, claro. Aos vinte anos fui uma mulher de muitos amores, e hoje rio-me para dentro quando me lembro das aventuras da minha tumultuosa juventude. Digamos que nem sempre tive muito juízo, mas vou mudar de assunto porque não quero comprometer figuras públicas. Depois casei, descasei... enfim, coisas... Estive com o meu ex-marido na ilha de S. Tomé, um dos últimos paraísos perdidos no meio dos oceanos, passei lá um ano quase inteiro, fumei um cigarrito ou outro de liamba, porque é preciso ver que eu também sou um pouco o produto do Maio de 68. Entretanto cresci, ganhei juízo, mas fiz asneiras na minha juventude, como é natural e saudável.
 
Está bem. Voltando então aos livros, se a sua escrita não lhe dava dinheiro, a Teresa terá tido de trabalhar… ou não?

Sim, claro. Tive vários empregos, e entretanto fiz o curso da Escola Superior de Turismo. Viajei com grupos de Portugueses e Sul Americanos um pouco pelo mundo inteiro. Ganhava razoavelmente bem e essa experiência também foi para mim qualquer coisa de extraordinário. Porque é quando as pessoas estão de férias que deixam sair cá para fora o seu verdadeiro eu, e eu penso que aprendi mais sobre a psicologia do ser humano a viajar com desconhecidos do que se me tivesse licenciado em psicologia.

Tive um mexicano que fumava maconha no banco de trás do autocarro, tive um padre que queria por força deitar-se comigo, tive uma Americana que chegou a Fátima e queria visitar o túmulo de Nossa Senhora… enfim, só isso já dava um romance. Mas eu também me divertia muito. Uma vez resolvi dizer a um casal de Italianos que o D. Pedro tinha morto a D. Inês e a tinha comido, assada no espeto. E eles acreditaram! Era uma vida óptima. Eu viajava, ganhava bem e ainda por cima divertia-me muito.

Mas isso durava o ano inteiro?

Não, era só durante o verão. Durante o Ano Lectivo frequentava a Faculdade de Letras, e aí já foi uma vivência diferente, deixei de ser a cábula de outros tempos. Com tudo isto formei-me já um bocadinho tarde, andei uns poucos de anos por aí, a ver como era o mundo à minha volta e a pensar como é que me apetecia viver a minha vida, de forma que quando fui para a Faculdade foi mesmo porque estava realmente interessada em alargar conhecimentos, sobretudo na área da Literatura, de forma que aconteceu uma coisa muito engraçada... havia as matérias do âmbito da Literatura propriamente dita, que me agradavam muitíssimo, e nas quais consegui notas muito boas, até sem precisar de estudar; cheguei a conseguir arrancar um 20 a Literatura Francesa, e hei-de ser sempre grata à Dra. Teresa Moura Guedes, que foi quem mo deu. E eu não o merecia. Em Literatura nunca ninguém merece um 20, foi mesmo generosidade dela. Mas soube-me muito bem, porque foi uma coisa que não teve importância nenhuma, mas por acaso aconteceu numa altura em que eu andava um bocado em baixo, tinham acontecido na minha vida uma série de coisas que me tinham entristecido, de forma que me soube muito bem, foi assim como um chocolate que nos oferecem quando a boca nos sabe a amargo... Mas voltando às cadeiras de Lliteratura, no fundo era chegar a casa e ler as obras, e saboreá-las, e reflectir sobre elas, e isso era uma coisa que eu fazia sem sacrifício nenhum, era uma coisa que eu fazia com prazer e por prazer puro e simples. Depois havia outras matérias que eu achava maçadoras, sobretudo na área da linguística, que é em si mesma uma matéria apaixonante, só que era dada de uma forma muito árida, muito pouco interessante e pouco apelativa, mas enfim, lá fui passando essas cadeiras mais maçadoras assim com uns dozes, trezes, catorzes... e já não foi nada mau!
 
Nunca cabulou num teste?


Só uma vez, mas vamos mudar de assunto.
 
E os professores, que tal eram?

Professores, apanhei um pouco de tudo. Bons e maus. Apanhei um que até se ouvia ressonar durante as aulas… mas também apanhei outros estupendos. Fui aluna de um homem extraordinário que é o Professor Doutor João Soares de Carvalho, que não dava muito da matéria, dava-nos os tópicos para nós estudarmos em casa, porque ele entendia que nós já não éramos nenhuns miúdos, e o resto do tempo… ele divagava sobre os temas mais variados… e eu acho que não faltei a uma única aula enquanto fui aluna dele, porque ouvi-lo falar era de facto qualquer coisa de apaixonante. Contam que o Vitorino Nemésio também era um bocado assim, e o Agostinho da Silva também. Mas não foi o único, tive outros bons professores, e se dissesse o contrário estaria a mentir. E o mais engraçado foi que eu pude comprovar que os galões não têm um significado tão grande como algumas pessoas julgam. Às vezes um doutoramento ou uma cátedra correspondem a uma verdadeira vocação para o ensino, outras vezes nem por isso. Uma das melhores professoras que tive foi uma simples leitora, e o pior de todos foi um Catedrático.
 
E com isto continuava a escrever, e a publicar…

Claro! Nessa altura fui atrás de um conselho que me deram, e assinei as minhas primeiras obras com pseudónimo. Depois fartei-me. Achei que não era eu. E ainda hoje, os pseudónimos são uma coisa que eu não aconselho a ninguém. É como nós usarmos uma outra pele por cima da nossa. É uma sensação muito desagradável. De forma que tomei a decisão de abandonar o pseudónimo e passar a publicar com o meu próprio nome, mas não foi fácil, porque nessa altura eu já estava com doze livros publicados, cinco prémios ganhos, e foi um bocadinho duro, mas pronto, foi uma coisa que eu entendi que tinha de fazer, e fiz, porque uma coisa que nunca me faltou na vida foi coragem. E comecei então a publicar com o meu próprio nome. Mas foi duro. Foi como, depois de tanto trabalho feito, recomeçar a minha vida literária a partir do zero.

Para além da minha ficção ainda escrevi uns poucos de livros por encomenda, e provavelmente virei a escrever mais alguns. Tenho sido paga para fazer esse tipo de trabalho, e não acho que tenha de me envergonhar. Os escritores são pessoas que precisam de ganhar a sua vida, como toda a gente, e eu escrevi de facto umas poucas de obras por encomenda, incluindo trabalhos de pesquisa jornalística sobre os temas mais variados, temas que nem sequer era eu que escolhia, e que oscilavam entre assuntos tão díspares como a prática das ciências ocultas, o fado, a homossexualidade, o racismo, o fenómeno de Fátima, a nobreza portuguesa, enfim, era aquilo que o editor entendia. Conversei com dezenas e dezenas de pessoas completamente diferentes, algumas muito interessantes outras nem por isso, umas mais fáceis de convencer a falar do que outras, e lá se fez essa colecção de entrevistas a pessoas que tinham alguma coisa a contar sobre cada um dos temas. Um destes livros chegou a estar no top de um programa de Televisão que era o Escrita em Dia, do Francisco José Viegas. Também fiz biografias, monografias, fotobiografias, fiz de tudo um pouco.
 
Quer dizer que a Literatura é neste momento a única actividade que lhe interessa?

Bom, a Literatura, claro, e outras formas de Arte, mas eu também sinto um apelo muito forte pela política. Eu julgo que as pessoas das Artes e das Letras são olhadas com alguma desconfiança pela classe política. Ou então é ao contrário, não sei muito bem. Mas penso que se um dia me visse com imunidade parlamentar para poder dizer a certos senhores de certos partidos (e não só) meia dúzia de verdades que eu cá sei, eles iam ganhar vergonha na cara. Porque eu não sou de dizer as coisas com muito açúcar à mistura. A um patife rematado deve fazer-se a justiça de lhe chamar exactamente aquilo que ele é. Como o Almada fez com o Dantas. Por isso gostava de ser deputada, sim, porque tenho muitas coisas para dizer, muitas injustiças para denunciar, porque tenho este ar de pessoa distraída, mas é um engano, sou uma pessoa que observo muito atentamente tudo aquilo que vai acontecendo à minha volta. Tenho sobretudo toneladas de ideias concretas para solucionar problemas concretos. Não sou muito uma mulher de teorias, sou mais de soluções práticas.

E no entanto eu julgo que a classe dos intelectuais e dos artistas portugueses sofre um bocado daquilo a que eu chamo o complexo do estalinismo requentado. Quem não for completamente daquela esquerda muito rasca, muito panfletária, é como se estivesse a trair a sua vocação de intelectual ou de artista. Eu não entendo isso. Eu sou uma pessoa politicamente moderada, e não percebo muito bem que as posições políticas possam servir para se aferir da qualidade daquilo que os autores escrevem, e a criatividade não é de forma alguma um “feudo” da esquerda grosseira e trauliteira.

Eu não me revejo na direita conservadora, nem pouco mais ou menos, como também não me revejo na esquerda Marxista, ou Trotskista, ou Maoista, ou outro ista qualquer. E no entanto desafio qualquer um a tomar certas atitudes solidárias que eu já tomei na minha vida. Eu já provei ao longo dos anos que me preocupo mais com os problemas dos que mais sofrem neste mundo do que essa malta da “esquerda-caviar” toda junta. E posso prová-lo. Não preciso de andar com rótulos partidários na testa para me preocupar sincera e genuinamente com os problemas da miséria que vai por esse mundo. E ao fim e ao cabo é isso que verdadeiramente conta. Há que denunciar e resolver os problemas das pessoas, de uma forma muito pragmática. Tudo o mais é demagogia pura. Se um dia me surgisse uma oportunidade de intervir politicamente na vida cultural do país, e passar à prática um trilião e meio de ideias que tenho guardadas no meu neurónio 32Ah7X, de certeza de não iria desperdiçar todo esse manancial. Eu tenho todo um projecto global que inclui inúmeras iniciativas, e que está à disposição, para quando for considerado necessário. Fazer coisas realmente giras com pouco dinheiro é uma especialidade minha. Se calhar porque não tenho muito dinheiro, por isso sei esticá-lo, fazê-lo render... Não faço omeletes sem partir ovos, é claro, mas com dois ovos e um pacote de esparguete, pouco mais, se for preciso dou de almoçar a quatro pessoas, e elas gostam, e ficam bem almoçadas.
 
E agora, com que é que preenche o seu tempo?


Neste momento desenho, pinto a óleo, fiz duas exposições individuais, várias exposições colectivas, colaborei inclusivamente num painel de temática Pessoana ao lado de pintores como o João Cutileiro e o Luís Pinto Coelho, e sinto que isso foi uma grande honra para mim (e para eles também, ora essa…)

Também estudo um bocadinho de música, mas sobretudo escrevo, escrevo muito. Tenho umas poucas de obras, cerca de 2.000 páginas inéditas de literatura, na gaveta, à espera. Mas de há uns anos para cá comecei a escrever guiões para Cinema, e estou completamente apaixonada por este novo formato que descobri que podia dar à minha escrita. Porque as pessoas nos dias de hoje estão a ler cada vez menos. O hábito de ler obriga a pensar, e pensar dá muito trabalho. É claro que a boa Literatura tem de continuar a ser publicada, e mal de nós no dia em que assim não for, mas eu penso que o futuro da Literatura também tende a passar muito pelo cinema e pela televisão, eu não tenho a menor dúvida a esse respeito, de forma que entendi que tinha de acompanhar os tempos... e comecei a escrever guiões, e ando radiante com os resultados que estou a conseguir, que superaram em muito aquilo que eu própria pensava que seria capaz de fazer. São guiões para filmes que podem ser feitos com pouco dinheiro, porque não vivem do show off nem dos décors. Vivem das emoções que a abordagem de determinados temas é capaz de provocar no mais secreto de cada um. Eu julgo que não é preciso afundar Titanics para mexer com as emoções das pessoas. Há outras formas muito mais baratas e igualmente eficazes de lá chegar e de encher salas de cinema.

Um dos guiões que eu gostaria muito de ver passados ao cinema é uma adaptação de “Um Triângulo no Infinito”, que foi um livro que foi duplamente premiado, recebeu o Prémio da Câmara Municipal de S. Roque do Pico, em parceria com a Secretaria Regional da Cultura do Governo da Região Autónoma dos Açores e com a Universidade dos Açores, e depois recebeu também o Prémio Ferreira de Castro, da Câmara Municipal de Sintra. Esse por acaso foi um prémio que eu recebi com um prazer especial, porque é um prémio de prestígio, é muito concorrido, eu julgo que estariam talvez umas trezentas ou quatrocentas obras a concurso, e acredito que entre eles estariam alguns nomes de primeira linha da nossa literatura, e esse é livro um livro que se tudo correr bem as pessoas ainda um dia vão ver passado ao Cinema.

Oh Teresa, mas você não pára!

É um facto que trabalho realmente muito, e não me queixo de falta de inspiração. Eu queixo-me é de que os dias não tenham mais de vinte e quatro horas, porque eu produzo muito, mas gostava de produzir muito mais ainda, eu sou uma pessoa com uma grande energia, nunca me sinto cansada, o que é que eu hei-de fazer? Sou como a Gabriela, já nasci assim...
Este meu temperamento não é fácil de gerir. Já houve quem estranhasse que eu tivesse ganho oito prémios nos meus primeiros anos de carreira, o que aliás também não é nada nunca visto. Há outros escritores portugueses que ganharam muitos mais. Mas eu costumo explicar que tenho muitas cunhas. No caso do Prémio Ferreira de Castro, por exemplo, eu sou muito amiga de um primo da avó do cunhado da sogra de uma vizinha de um funcionário da Câmara, de forma que foi tudo muito fácil.

Como é que se consegue? Trabalhando, trabalhando muito, dias a fio, noites a fio. E depois há que fazer cada dia melhor e melhor ainda. Escrever cada texto como se fosse a última coisa que pudéssemos fazer na vida. Às vezes parece que as personagens nos querem comer as vísceras, de tal forma exigem de nós, mas é assim. Não há outra via.
 
Pois, é sobre a sua escrita que nós gostávamos que nos falasse um pouco mais.

Escrever é sempre uma viagem. Um livro que se começa é sempre uma aventura, na qual nós entramos sem ter nenhumas certezas quanto ao desfecho que nos aguarda. Para dar um exemplo, uma coisa engraçada que me aconteceu, foi começar a escrever a Maria Benta, que inicialmente era suposta ter sido a mãe do Lourenço, ou seja, era para ter sido uma espécie de “continuação” de um romance que já estava escrito, e publicado, e esgotado, e de repente a Maria Benta “voltou-se para mim”, naquele jeito dela de mulher do campo, pôs a mão na anca e começou a barafustar, refilona como só ela, a dizer que não lhe apetecia nada ser a mãe do Lourenço, nem precisava para nada de existir à sombra dele, nem de ninguém. E de facto eu apercebi-me de que a Maria Benta já era uma personagem com tanta força que já valia por ela própria, já não precisava de ninguém para existir, e foi assim, ela ganhou a sua “carta de alforria”, libertou-se por mérito próprio, e ainda bem que isso aconteceu, porque eu julgo que desta maneira ela acabou por se tornar numa personagem muito mais interessante e com muito mais graça.

Outra coisa curiosa que acontece, é que eu não penso que seja eu a escrever os meus livros. Eu esboço as personagens centrais, mas depois são elas que acabam por se escrever a elas próprias e à sua própria história. Aconteceu-me isso com a Maria Benta, com a Beatriz, com o Lourenço, com a Branca, com o Jason, o Gabriel, o Guilherme e a Leonor, o Filippo, todos eles... isto é um fenómeno muito engraçado que eu não sei explicar, mas é completamente verdade. Eu começo... escrevo meia dúzia de páginas, e de repente, quando dou por isso, é como se a personagem se estivesse a escrever a si própria. A prova disso é que eu não sou poeta, gostava muito de ser, mas não sou, e no entanto algumas das minhas personagens têm escrito poesia. E eu não sinto que aqueles poemas sejam meus. São delas, das personagens centrais de cada um dos meus livros.

Às vezes também me canso um bocadinho delas, das personagens, e deve ser por isso que eu não escrevo novelas muito longas. Com a Beatriz, por exemplo, aconteceu uma coisa curiosa. Eu de repente cansei-me do livro, não me apeteceu mais continuar a trabalhar aquela personagem, e acabei ali, muito simplesmente. Se calhar porque gosto do livro, gosto até muito, mas não gosto muito da Beatriz, enquanto pessoa. O livro foi publicado, as pessoas gostaram bastante, o livro até foi Livro da Semana, no Programa Acontece, e de repente, passados uns anos, não é que de repente me saíram mais dois capítulos? Não me apeteceu que a obra terminasse daquela maneira, e dei-lhe um outro desfecho. Significa isto que se esta obra um dia vier a ser reeditada, as pessoas que já a leram vão ter uma surpresa, porque o desfecho é outro, perfeitamente inesperado. Mas é assim, as personagens dos livros são pessoas, pessoas vivas, e de repente qualquer pessoa pode achar que está muito próxima da morte, e no último momento a vida pode sempre dar uma reviravolta... de forma que tão cedo eu não penso reeditar este livro, não vá de repente surgir mais um capítulo que me apeteça ainda escrever... Tudo isto pode parecer um pouco estranho, mas se calhar é por isso que a escrita é um universo tão fascinante!

É de tal forma apaixonante que eu por mim nem sequer tenho sido capaz de gerir outros aspectos da minha carreira. Tenho muito mais que fazer do que “aparecer” na televisão. Quer dizer, eu não ando escondida, nem me recuso a ir à televisão; estive duas vezes no Acontece, estive no programa da Helena Ramos, estive em mais dois ou três programas, com o Jorge Gabriel, com a Fátima Lopes, com a Serenella Andrade, estive num outro programa de homenagem ao meu querido amigo Augusto Deodato Guerreiro, que é um homem que é cego, e é Doutorado em Ciências da Comunicação, é Director do Gabinete de Acção Cultural da Câmara Municipal de Lisboa, e é uma das pessoas mais extraordinárias que eu conheço. Também cheguei a gravar um programa de mais de uma hora para a ORTF, que é a Televisão Austríaca, dei uma entrevista de meia hora para a Rádio Vox, dei outra de cerca de uma hora ao meu queridíssimo amigo José d’Encarnação, que é Arqueólogo, e é Professor Catedrático em Coimbra, um homem adorável, verdadeiramente brilhante, generoso como só ele, que ao Domingo tem um programa na Rádio CSB, em Cascais, e é outra das pessoas que eu mais respeito e admiro neste mundo, dei várias entrevistas para o Letras e Letras, dei várias ao António Cândido, do Dia, e pelo menos umas duas ou três à Teresa Oliveira, do Correio da Manhã, dei uma ou duas ao Zé do Carmo Francisco, que escreve em vários jornais, por isso nem sei muito bem onde elas foram parar, e já nem me lembro de quantas mais, portanto eu não ando a fugir dos Media, mas fui sempre convidada. Não faço nada para “aparecer”. Não tenho temperamento para isso. É claro que era capaz de ter algumas vantagens, pelo menos em termos de popularidade, e de vendas, mas por outro lado não sei se não é melhor assim. A fama deve ser uma coisa um bocadinho maçadora de gerir, penso eu. Eu gosto de poder sair, gosto de ir à praia, ao cinema, ao cabeleireiro, ao supermercado, gosto de ir onde me apetece, e não sei se me sentiria muito confortável na pele de “uma vedeta que toda a gente conhece”. Eu assim posso sair de calções, não me preocupo muito com as toiletes, nem com maquilhagem, nem com nada. É muito mais confortável.

Mas já agora, e com tudo isto, gostava de estranhar que o Jornal de Letras, que é tido na conta de guru da cultura em Portugal, e por isso tem obrigação de se interessar pelos livros que vão saindo, nunca quiseram saber da minha obra. Nem uma linha, ao fim de trinta livros, vinte anos de trabalho, e de livros regularmente enviados ao director editorial. Mas pronto, eles lá devem saber porquê. Porque eles é que são os jornalistas, não é? Não sou eu que devo ir à procura deles... a pedir para “aparecer”. Até me ficava mal.

Estamos a viver tempos muito difíceis para a Literatura. As pessoas hoje em dia são muito solicitadas por outras formas de comunicação, e contra mim falo, porque perco às vezes horas na net, só a brincar, quando podia, e se calhar devia, tinha obrigação de estar a escrever, ou a ler um bom livro, e depois fico cheia de sentimentos de culpa, a achar que desperdicei estupidamente um tempo precioso, porque eu não sei se vou mas apesar de tudo eu não acredito que a Literatura venha alguma vez a desaparecer da face da terra. Porque não há nada, nada mesmo, que possa substituir o prazer da leitura de um bom livro, e eu penso que é natural que nós venhamos a assistir no futuro a uma certa depuração daquilo que se vai publicando por aí, e eu espero bem que isso venha a acontecer, porque nós hoje em dia assistimos a coisas que eu fico completamente estúpida... qualquer pateta alegre se põe a rabiscar disparates, e acha que tem ali uma obra literária... publica um primeiro livro, unzinho só, e já se intitula escritor... e vai à televisão dizer todas as tolices que lhe vêm à cabeça... ora isto não é ridículo? Para mim é completamente ridículo. Por isso eu achava bem que as editoras tivessem um rebate de consciência, e ao menos uma vez por outra publicassem literatura. Mas isto sou eu a falar para o vento, claro, porque o que conta realmente são as leis do mercado das futilidades... e eu não os censuro, eu compreendo, porque eu própria fiz livros por encomenda, que não são a minha Literatura, e sinceramente nem sempre me apetecia muito escrever essas obras, escrevi-as porque me pagaram para isso, e eu preciso de ganhar a vida como toda a gente, agora nunca abandonei a minha ficção. Em paralelo fui sempre trabalhando nesta ou naquela obra, naquilo que considero realmente a minha obra literária. Mas também fiz uma descoberta engraçada. É que a qualidade da Literatura não é incompatível com as leis do mercado. É claro que se determinados escritores insistirem em continuar a escrever coisas chatas, chatas, chatas que não há quem aguente uma coisa daquelas, aí eles não se podem queixar dos resultados das vendas. O escritor dos dias de hoje tem de olhar para si próprio como um profissional cuja actividade tem de ser tão rentável como outra qualquer, e basicamente tem de criar um produto que o público queira realmente consumir. Ora isso requer um olhar muito lúcido, muito profundo e muito corajoso sobre a sociedade em que vivemos. Qualquer outra via, incluindo a Literatura das Parvoíces, está condenada ao fracasso. Eu inclusivamente sou capaz de fazer uma habilidade, que é editar livros que antes de irem para a gráfica já estão comprados, pagos, esgotados, e com uma bela margem de lucro. Eu sou capaz de fazer isso, mas não vou explicar como é, não aqui, nem de borla.

Estou a lembrar-me de ter ouvido não sei quem dizer na televisão que escrevia por instinto, ou não sei o quê, assim uma tolice qualquer, mas eu acho que as pessoas que dizem uma barbaridade dessas são pessoas com um grau de ignorância tão grande, que nem elas próprias imaginam até que ponto são ignorantes. As pessoas que dizem isso são pessoas que não sabem o que estão a dizer. É claro que o talento de nascença, o instinto, eu prefiro chamar-lhe sensiblidade, é um factor indispensável, sem ele não se chega a lado nenhum, até aí estamos todos de acordo; mas depois há que fazer todo um percurso de aprendizagem, meses, anos a reflectir sobre textos literários, a saboreá-los, a virá-los por todos os lados, a “espremê-los” até à última gota, e o melhor lugar para isso é com certeza a Faculdade de Letras. A Clássica, entenda-se, porque nas privadas, por aquilo que eu oiço dizer, aquilo é um regabofe pegado e a maior parte dos alunos sai de lá sem saber coisa nenhuma. Agora o percurso universitário é muito importante, porque é lá que o futuro escritor tem oportunidade de encontrar pessoas que há trinta, quarenta anos, não fazem outra coisa que não seja análise de texto, e fazem-no geralmente com grande seriedade, e é por isso que eu defendo que é efectivamente útil ir lá aprender alguma coisa com quem realmente sabe. É útil, e eu diria quase indispensável. Quem recusa isso está a deitar fora fontes inesgotáveis de conhecimento, e não só, há um certo “olho clínico” que só se ganha com anos e anos de treino, e isso é um factor de enriquecimento que não deve ser ignorado nem menosprezado por ninguém. De forma que depois da licenciatura ainda lá fiquei mais dois anos, a fazer o Curso de Mestrado, e não me arrependo nada. Foi um tempo muito bem empregue. Sobretudo porque nessa fase da pós-graduação os alunos já são pessoas com outro grau de maturidade, as turmas são muito mais pequenas, os próprios professores têm um grau de intimidade com os alunos que é completamente diferente. Já não há aquela distância da praxe entre professores e alunos, somos ali só um grupo de pessoas com uma paixão em comum pela Literatura, que se entrega de alma e coração ao estudo exaustivo das obras. Foram mais dois anos, seis seminários. Escolhi para a minha tese um tema que considero muito interessante, que é a abordagem da questão religiosa na obra do Oscar Wilde. Porque as pessoas conhecem o Wilde como dramaturgo, como romancista, poeta, ensaísta, conhecem-no pelo escândalo que rebentou à volta dele, que o levou à prisão e lhe antecipou a morte. Mas há um aspecto que eu considero muito interessante, e que para mim está muito claro em toda a obra dele, sobretudo no Retrato de Dorian Gray, na Salomé e no De Profundis, que é a questão religiosa. O Wilde foi um indivíduo completamente transgressor, tendo sobretudo em conta a mentalidade da época em que viveu, mas nunca deixou de ser um homem profundamente religioso, e eu julgo que esse aspecto da obra dele não está muito estudado. Mas voltando ao meu Mestrado, fiz os Seminários, ou seja, toda a parte escolar, fiquei com a pós graduação, mas não defendi tese, que era um requisito necessário para eu poder pensar em ficar na Faculdade de Letras como professora, e não o fiz porque não me valia a pena. Para mim era tempo perdido ter tanto trabalho, e ir lá àquele cerimonial todo, que era uma seca das antigas, porque entretanto percebi que a Faculdade de Letras não tinha lá um lugar de professora à minha espera. Tomara o Ministério ver-se livre de metade dos professores que lá estão. Por isso voltei-me para a minha Orientadora e disse-lhe: “Professora, eu gostei muito de a conhecer, mas não tenho futuro aqui, por isso adeus, até qualquer dia.” Depois fui para a Universidade de Oxford. Fui fazer mais duas pós graduações, e foram experiências que eu não trocava por nada nesta vida. Em seguida voltei, acreditando eu que iria ser possível leccionar Criação Literária numa Universidade Portuguesa, nem que fosse como cadeira de opção. Elaborei um programa de ensino, um programa bastante completo, diga-se de passagem, que me levou meses a preparar em Oxford, em seguida mandei uma carta com uma proposta acompanhada de curriculum para todas as universidades portuguesas, estatais e privadas. Ainda houve um Senhor Professor Doutor muito conhecido no nosso meio académico que me telefonou, a seguir veio a minha casa com uma “conversa de engana parvos”, depois ainda me marcou mais duas ou três reuniões, e eu soube mais tarde que ele nas minhas costas chegou a fotocopiar o programa sem me pedir licença, sem coisa nenhuma... e assim me “surripiou” o programa, que a esta hora está a ser usado não sei onde, nem por quem... ou se calhar sei, e não me apetece dizer. Hoje em dia entra-nos um ladrão em casa e nós já não vamos fazer queixa à Polícia. Para quê?

E com isto apenas a UITI me abriu as portas. Ao longo de quase três anos leccionei Criação Literária a turmas de pessoas na sua maioria com mais de sessenta anos, e foi outra experiência extraordinária, e com excelentes resultados, diga-se também. Mas a UITI não paga aos seus professores, ali dentro toda a gente funciona na base do voluntariado, e eu, por muito boa vontade que tenha, e por muito que goste, e gosto, de ser solidária com toda a gente, não posso viver do ar.

Em resumo, as universidades portuguesas não têm lugar para mim, seja por falta de verba, seja por medo por parte de alguns professores muito velhos, que são verdadeiros fósseis, de verem institucionalizado um fenómeno que se chama criatividade. É assim.

Eu pela minha parte considero que a Licenciatura só não basta, nem pouco mais ou menos, porque depois do percurso de aprendizagem é preciso ir mais longe, voltar para trás, fazer outro percurso de sentido inverso, que é o percurso da desaprendizagem, ou seja, depurar aquilo que é excessivo, adquirir a capacidade de esconder toda a técnica de escrita, por forma a que tudo pareça espontâneo, não o sendo. Porque não vamos ser ingénuos; nunca, nem no tempo dos trovadores medievais, a espontaneidade produziu obras-primas de literatura. Quem pensa isso pensa um disparate. É como as pessoas imaginarem, por exemplo, que os grandes poemas de amor são aqueles que foram inspirados por grandes paixões. É outra tolice. As grandes paixões perturbam demasiado o poeta para que dali possa sair alguma coisa de extraordinário. E não sou só eu a dizer isto. Já o Oscar Wilde dizia a mesma coisa no século XIX, e muitos outros ensaístas e teóricos também são da mesma opinião. Outra coisa importante que muitas pessoas têm alguma dificuldade em aceitar, mas que eu em absoluto defendo, é que existe um ponto que faz toda a diferença entre “uma pessoa que escreve umas coisinhas” e um escritor a sério. É a maturidade. E por maturidade eu entendo a capacidade de nós criarmos um perfeito e absoluto distanciamento relativamente às personagens das nossas obras. Eu conheço algumas pessoas que se julgam escritoras, e ainda não pararam de escrever autobiografias mais ou menos camufladas e falhadas; ainda não aprenderam a criar personagens e situações verdadeiramente a partir do nada. Essas pessoas, para mim, ainda não podem ser consideradas romancistas, ou sê-lo-ão potencialmente, talvez, nalguns casos, mas numa fase ainda muito incipiente. Ainda estão a dar os primeiros passos. Têm de parar de olhar para o seu umbigo, que é a última coisa na qual os leitores estão interessados, sair de dentro delas próprias e criar, escrever sobre os outros, sobre o mundo, sobre as ideias...

Eu nunca me coloquei a mim própria como personagem de uma obra, e recuso-me a fazê-lo. Por alma de quem é que eu havia de fazer uma coisa dessas? A minha intimidade é minha, e nem sequer me parece que o leitor esteja minimamente interessado em conhecê-la. Até num texto tão simples como este, eu posso dizer aquilo que penso, e digo, com certeza, mas não falo dos meus sentimentos mais íntimos. Esses são meus e só meus.

E o Governo, tem-na apoiado?

Não. Eu tenho a maior das razões de queixa do Estado Português. As Câmara Municipais sim, têm-me reconhecido valor, e têm-me dado trabalho. Tenho escrito livros para eles, tenho feito exposições, conferências... quanto ao Poder Central, esse não, até hoje nunca me apoiou. Aliás em termos mais gerais eu realmente não devo muito ao Estado Português. E senão… quando eu nasci, foi o meu pai que pagou à parteira. Quando eu era miúda e nós adoecíamos era o médico que ía lá a casa, e os meus pais pagavam. Os meus estudos também foram os meus pais que pagaram, do princípio ao fim. Na Faculdade paguei aquilo que era de Lei, por isso... nunca me fizeram outro favor que não fosse o de permitirem que eu viva num País que não está em guerra, o que já é muito bom, mas não muito mais do que isso. Quer dizer, não está em guerra, mas já esteve, e qualquer dos meus irmãos podia ter morrido em África, só não aconteceu porque não calhou, por isso nem sequer a paz eu devo ao Estado Português.

Por várias vezes concorri aos subsídios do ICAM, para realizar uma primeira longa metragem de ficção, e estes subsídios existem justamente para dar uma chance a realizadores de primeiras obras, como seria o meu caso. Concorri com um script baseado no “Um Triângulo no Infinito”, de que já falámos, e que é seguramente uma das minhas melhores obras, uma obra duplamente premiada. Já tinha o filme todo feito dentro da minha cabeça, já tinha assegurado o local para as filmagens, que era o Hotel de Seteais... de graça. Já tinha assegurada a banda sonora, que era “apenas” Schubert, Beethovan, Schumann, Mozart, Bach, Chopin, interpretados pela Maria João Pires. De borla. Mas o júri do ICAM não reconheceu mérito ao projecto. Eles lá devem saber o que fazem, e sobretudo por que é que o fazem.

A seguir tive uma conversa com o António Cunha Telles, que me aconselhou a começar pelas curtas metragens, e eu assim fiz. Concorri com um texto que era um diálogo composto por estrofes entrecruzadas e recontextualizadas do Ricardo Reis e do Alberto Caeiro. Com a devida autorização, é claro. Também me foi negado o apoio, por falta de qualidade. O subsídio foi para o Jacinto Lucas Pires. Pode ser que ele tenha feito um filme muito interessante, mas se assim foi passou-me completamente ao lado. Mas ainda bem que foi assim, porque desta maneira ficámos todos a saber que o Fernando Pessoa foi um pateta qualquer que andou por aí, que nunca escreveu nada que prestasse, e nós também somos todos outra cambada de bestas, por gostarmos tanto dele. Os senhores do júri do ICAM é que devem ter razão.

Eu ainda me lembro que depois daquele escândalo que foi o “Branca de Neve”, repito, DEPOIS disso, as Produções Madragoa e os seus “tentáculos” receberam milhões de Euros dados pelo ICAM. Está na Internet para quem quiser ver. É bem feita que o Paulo Branco qualquer dia lhes faça um filme todo em amarelo, com bolinhas azuis, duas horas de silêncio sepulcral, que é para eles irem todos lá bater muitas palmas, fazer figura de inteligentes. Assim vai a cultura em Portugal.

Aqui há uns anos atrás a Maria Velho da Costa recebeu o Grande Prémio da APE, justíssimo, diga-se; teve direito a quatro segundos no Telejornal. Pouco depois o Eugénio de Andrade recebeu o Prémio Camões, outro prémio mil vezes merecido, teve direito a outros tantos quatro segundos. Não se fez um recital de Poesia em honra dele, não se fez nada. A Sophia Mello Breyner recebeu o Prémio Rainha Sofia, em Espanha, e nada. Depois eles vão morrendo, e é um fartar vilanagem, com muitas homenagens, e com toda a gente a ganhar pipas de dinheiro à custa deles, como já fizeram com outros. Um bandido qualquer mata a mulher à facada e nós temos de ver a cena toda com todos os pormenores sórdidos, no telejornal. Que mais é que eu lhe posso dizer?

Qualquer dia temos aí a Lili Caneças a escrever um romance, e é notícia de abertura no Telejornal, com entrevista alargada e meia hora de reportagem especial, lançamento em directo, e em menos de 24 horas tem a edição esgotada e tem a Televisão a pagar milhões pelos direitos autorais, para fazer uma telenovela... o que é que eu hei-de dizer mais? A Sofia Aparício fez a Dama das Camélias. Qualquer dia fazem um filme sobre a tomada de Lisboa aos Mouros, e põem o Cristiano Ronaldo, que precisa imenso de ganhar mais uns cêntimos, a fazer de D. Afonso Henriques. Porque há que fazer receitas de bilheteira. E note-se que eu não tenho nada contra essas pessoas. A Lili Caneças têm todo o direito de ser aquilo que lhes apetecer, a mim não me incomoda nada, francamente, isso é o lado para onde eu durmo melhor. A Sofia Aparício é uma rapariga lindíssima, em qualquer passerelle de Moda, em qualquer parte do mundo, e por acaso até me deixou muito boa impressão no dia em que a entrevistei. O problema não é ela. O problema é a Escola Superior de Teatro, porque eles andam a criar expectativas de carreira àqueles miúdos, e depois quando surge uma oportunidade de fazer a Dama das Camélias, eles passam por cima das actrizes profissionais, e vão buscar uma profissional de outra área... Então porque é que não fecham o Conservatório, de uma vez por todas? O Cristiano Ronaldo é óptimo jogador, e é muito simpático, e mete muitos golos, embora eu não perceba nada de futebol, e todos eles são pessoas decentes, penso eu. Isto foi só um exemplo que eu fui buscar. O que eu quero dizer é que a cada um o seu ofício, cada macaco no seu galho, não é assim? Ou não deveria ser? E a televisão também não ajuda nada. Quer dizer, em primeiro lugar é preciso perguntar se os portugueses estão muito interessados em programas culturais. Eu penso que a maioria nem por isso. Ou pelo menos da maneira como eles são feitos, que são uma "pincelada" daquelas... Depois há que distinguir as televisões privadas das públicas. As privadas fazem como entendem, pagam os seus impostos, espero eu, e não têm propriamente a obrigação de ser os educadores do povo português. Era bonito se fizessem mais do que fazem, mas não é propriamente uma obrigação que eles tenham. Eu falo é da Televisão Pública, que nós pagamos. Dá-me a impressão que nos primeiros anos da RTP havia mais sensibilidade para estas coisas da literatura. Eu ainda me lembro tão bem do programa do João Villaret, que toda a gente adorava, até eu adorava, e tinha 12 anos... a seguir veio a Maria Germana Tânger, que era, e é, eu espero que ela esteja viva e de boa saúde, uma mulher admirável, e uma dizedora de poesia fantástica, depois suponho que houve mais um ou dois, numa altura em que eu não vivi em Portugal, não sei bem quem foram as pessoas que os fizeram, o último, salvo erro, foi o Mário Viegas, talentosíssimo, mas neste momento... não há nada. Eu penso que nós temos tantas pessoas neste país a dizer bem poesia... a Elsa Noronha, o Joaquim Castro Caldas, e outros, e por outro lado temos uma crise tão grande no sector do Teatro, há tanto actor a viver tão mal, e a precisar de ganhar uns tostões... ponham-nos a dizer poesia, pelo amor da santa! Eu prometo que não falho um único programa! Façam um concurso de declamação, com um júri composto por actores profissionais, e se calhar esta malta até passa a gostar mais de poesia... mas enfim, fica aqui o pedido a quem de direito, se alguém quiser fazer o favor de lhes transmitir...

A RTP 2 tinha o Acontece, que por acaso eu acho que era um programa que estava mal pensado, e mal estruturado, porque eles limitavam-se a procurar na Internet, e a fazer um magazine cultural muito rápido e muito superficial na análise dos temas. E as pessoas da cultura não querem magazines culturais de dez minutos. Querem programas sérios, querem que as obras publicadas sejam analisadas em profundidade, e isso o Carlos Pinto Coelho não sabe fazer, nem tem obrigação disso, porque ele é jornalista, não é professor de Literatura. Querem programas em que os eventos culturais sejam comentados por especialistas em debates muito mais alargados, portanto eu julgo que o ideal era que a televisão por cabo inaugurasse um canal nesses moldes, ou seja, um canal para as pessoas que realmente se interessam pelos livros que vão saindo, os concertos de música, as peças de teatro, o ballet, se é que ainda se faz ballet em Portugal, não sei muito bem, e sobre os filmes, as exposições de Arte, enfim, tudo aquilo a que nos habituámos a chamar cultura, apresentados por especialistas, com convidados que viessem falar da sua literatura, da sua pintura, da sua música, enfim, mas cada autor com pelo menos uma hora para apresentar a sua obra, responder a perguntas, e eu não acho que isto fosse maçador. Não para quem realmente gosta dessas coisas.

E quem são os seus autores favoritos, Teresa?

Essa é uma pergunta que me fazem muitas vezes, mas é tão difícil de responder... na minha mesa de cabeceira só tenho a Bíblia, mas os autores do meu coração são tantos... Tenho uma perfeita veneração pela Virginia Woolf, gosto muito da Selma Lagerlöff, do Jorge Amado, da Marguerite Duras, do Kafka, da Toni Morrison, do Garcia Marquez, da Maria Gabriela Llansol, do Mario Vargas Llosa, vibrei intensamente com O Perfume, de um autor alemão chamado Patrick Süskind. É uma obra muito perturbadora, mas verdadeiramente genial. Gosto muito da Poesia da Sophia, do Eugénio de Andrade, da Teresa Horta, tenho uns gostos muito variados. Depois há outros que eu admiro do ponto de vista literário, com certeza, mas admiro mais ainda do ponto de vista humano, como o Oscar Wilde, o Garcia Lorca, o Almada Negreiros, a Natália Correia... são personagens que nunca vergaram perante o poder instituído, e eu admiro-as por isso. Agora eu tenho de confessar uma coisa. É que eu dedico tantas horas à minha escrita, levo isto tudo tão a sério, que de repente não me sobra muito tempo para ler nem metade daquilo que me chega às mãos, que são alguns cinco ou seis livros por semana, de pessoas que me pedem prefácios, críticas... mas lá vou arranjando uns bocaditos, aqui e ali, e tenho recebido muitos originais sem grande interesse, mas também tenho comigo alguns capazes de dar best-sellers, e lá estão, coitados, a definhar, porque são bons demais para as editoras se interessarem por eles.
 
E na pintura, na música?

Na pintura talvez o Amadeo de Souza Cardoso, a Vieira da Silva, o Noronha da Costa. Na Música os Madredeus, com a Teresa Salgueiro, claro. Ela não é uma mulher. É uma deusa a cantar. É como a Maria João Pires, uma deusa ao piano. Mas claro que lá fora há gente a fazer arte de uma qualidade excepcional. Eu estava só a referir-me aos nossos. Por tudo isto eu defendo que se devia fazer um esforço nacional no sentido de apoiar um pouco mais a cultura. Mais literatura, mais concertos, Ópera, Ballet, Filmes como o Isadora, o Jonathan Livingston Seagul, O Clube dos Poetas Mortos, o Orlando, o India Song, o Purple Rose of Cairo, o La Vita e Bella, o Stardust Memories... eles são tantos, e podiam fazer-se tantos mais… aqui em Portugal, porque não?

Bom, vamos agora falar um pouco sobre convicções. A Teresa é a favor da pena de morte?

Sou contra. Até que me provem a infalibilidade do julgamento humano. Acho que foi o Victor Hugo que disse isso, e eu não posso deixar de subscrever. Agora a impressão que eu tenho é que há um grande desequilíbrio no nosso sistema judicial. Um indivíduo comete um pequeno furto, e já não é a primeira vez, e estava com pena suspensa, e paga tudo por junto, apanha uns poucos de anos de cadeia, sai de lá criminoso encartado, ponto final. Um bandido qualquer cheio de dinheiro mata uma pessoa, arranja um bom advogado, compra meia dúzia de testemunhas, ou arranja umas poucas de atenuantes, todas as que a Lei lhe permite, que são muitas, safa-se com um veredicto de inocente, ou com meia dúzia de anos de cadeia, ao fim de dois ou três está cá fora. Como é que pode ser?

Eu entendo que determinados indivíduos que cometem determinado tipo de crimes deviam ser punidos de uma forma muito mais dura, com trabalhos forçados até à exaustão, de forma a lembrar-lhes, a cada momento, que também eles provocaram muito sofrimento a outros seres humanos. Estou a lembrar-me do caso daquele indivíduo que levou a família toda para a praia, e matou-os a todos! E foi solto! E os indivíduos do chamado gang multibanco... Soltaram o Pedro Infante, e ele voltou a matar... E no entanto ninguém sabe se a Leonor Cipriano matou a criança ou levou tanta pancada até que confessou. Não tenho nenhum bom “feeling” acerca do casal McCann, mas também não tenho certezas de nada. No entanto, será que tenho uma solução melhor para o caso do que aquela que a nossa polícia encontrou, que foi deixá-los ir embora? A única coisa que sei é que isto é um país onde a justiça falha, falha demasiadas vezes, e nós não devíamos aceitar isso de maneira nenhuma! Até porque misturam assassinos com miúdos que cometeram delitos relativamente pouco graves e com isso criam criminosos perigosíssimos.

Mas voltando à pena de morte, é uma coisa que eu não posso aceitar. Embora também admita que para tudo na vida se podem (e devem) abrir excepções. Eu não hesitaria em condenar à morte um Pinochet, por exemplo, ou um Milosevic, ou um Suharto, ou um Pol Pot, um Idi Amin, um Bokassa, um Hitler, um Estaline, um Fidel Castro, um bin Laden, um Saddam Hussein, um Mao Tse Tung, mas lá está, são casos tão excepcionais... são mass killers... e eu ponho-me a escrever estas coisas e dou comigo extremamente confusa. Então o Truman também não foi um mass killer? Por outro lado quantos Americanos morreram em Pearl Harbour? Mas depois, será que é a vingança que conduz à paz? Aliás a figura do Truman é uma figura que ainda um dia hei-de tentar estudar e aprofundar um pouco melhor. Eu ainda estou para saber se os Rosenberg não estariam inocentes. Porque há uma série de peças que parece que não encaixam no puzzle... eu tenho dúvidas, muitas dúvidas. E lá estou eu a falar sobre os Americanos, com quem nunca consegui ter uma relação pacífica, porque eu acho que eles conseguem ser de uma arrogância insuportável, e acham que podem mandar no mundo inteiro, e depois são de uma ignorância... não sabem nem localizar o seu próprio país num mapa do mundo. Eu pessoalmente conheço-lhes as qualidades mas também lhes conheço os defeitos. Ora eu julgo que durante os próximos cinquenta anos não vai ser possível falar dos Americanos sem falar do 11 de Setembro, do Islão e dos Judeus. Não se pode admitir que venha alguém matar assim quatro mil pessoas que estavam ali a trabalhar, sem terem feito mal a ninguém. Foi uma coisa completamente bárbara. Por outro lado também não acredito que as motivações dos muçulmanos tenham sido de carácter religioso. Porque eu julgo que não existirá nada no Corão que incite à violência. E o bin Laden sabe isso muito bem, porque ele não é estúpido. Eu acho que nós temos é de perceber que a Terceira Guerra Mundial já começou, e ninguém deu por isso. É a guerra entre ricos e pobres, e é uma guerra que existe a fervilhar desde que o mundo é mundo, mas agora nota-se mais. Com as desigualdades gritantes que existem, é natural que os povos que vivem na miséria, como acontece na maioria dos países árabes, sintam um profundo ódio contra os povos que eles consideram ricos. Porque eles vêem aqueles miúdos americanos atafulhados de hamburgers, coca-cola e batatas fritas, miúdos que chegam a pesar o triplo daquilo que seria saudável para a idade deles, e confundem essa imagem com riqueza, bem estar e felicidade. Eles nunca devem ter visto aquilo que eu vi, pessoas a dormirem na rua, na 5ª avenida, no centro de Manhattan, em cima de montes de neve com mais de um metro de altura. Mas é a mesma coisa que se passou na Irlanda, aquilo não foi uma guerra religiosa, foi uma guerra entre ricos e pobres. Mesmo em relação à Segunda Guerra Mundial, eu não acho que o Hitler, pessoalmente, acreditasse na teoria da supremacia da raça ariana, nem nada dessas parvoíces. Ele queria o dinheiro dos judeus, era só isso, mais nada. Porque é que a Inquisição queimava os judeus? Porque era a forma de lhes confiscarem as fortunas. Quando a França se viu em tempos de fome, o Rei Filipe o Belo não acabou com os Templários, que eram os banqueiros da época? E não lhes confiscou os bens? E porque é que se fez a Revolução Francesa? Porque o dinheiro estava mal distribuído, e os franceses tinham fome, que é sempre má conselheira. Foi a mesma coisa que aconteceu na Rússia, na Revolução de Outubro. E porque é que os espanhóis invadiram Portugal em 1580? Porque queriam o ouro do Brasil. É uma guerra velha, velha como o mundo, que vai aparecendo em locais diferentes, e em épocas diferentes, com roupagens diferentes, mas é sempre a mesma guerra. E eu receio que seja uma guerra que não vá acabar nunca, porque enquanto existirem dois homens à face da terra, um deles há-de sempre cobiçar aquilo que é do outro. É a história de Caim e Abel, que se vai repetindo ao longo dos séculos, ao longo dos milénios.

E não sei bem porquê, vem-me à mente o 25 de Abril. Era indispensável que se fizesse, e para mim o grande herói do 25 de Abril foi o Salgueiro Maia, não foi mais ninguém. Porque eu ainda me lembro muito bem, quando a situação começou a aquecer, ali no Largo do Carmo, se as coisas de repente tivessem corrido mal, a primeira bala tinha sido ele que tinha levado com ela, disso ninguém tenha dúvida nenhuma. Achei completamente ridículo que a Maria de Medeiros tivesse posto o pai no meio da tela, como se o Maestro tivesse sido o grande herói da história.

Eu acho muita graça, certos indivíduos do 26 de Abril, e do oportunismo, que não arriscaram a vida, não arriscaram nada, andarem para aí feitos não sei o quê... eles devem pensar que as pessoas têm a memória curta, mas eu não tenho, eu ainda me lembro muito bem. Ainda bem que se fez o 25 de Abril, tinha mesmo de se fazer, porque foi a forma de nós conquistarmos o direito a pensar pela nossa própria cabeça, e isso é como a saúde, ou como o amor, são coisas que não há dinheiro que pague, mas o 25 de Abril não é propriedade deste nem daquele, é tanto deles como é meu ou de qualquer outra pessoa.
Mas Portugal é uma terra de gente cheia de preconceitos. Veja-se a questão do racismo, por exemplo. E eu considero que o racismo é uma aberração. O racismo foi uma coisa que os povos ricos e colonialistas inventaram, para obrigarem outros povos mais pobres, e geralmente bastante indefesos, a trabalhar para eles por pouco, ou até por nenhum dinheiro, e nesse aspecto os ingleses talvez tenham sido os piores de todos. Mas é uma aberração, e é uma coisa que é contra-natura, porque se formos a ver, a minha cadela, quando vai à rua, e vê outro cão, e se põe a dar ao rabo, toda satisfeita, tanto se lhe faz que ele seja branco, ou amarelo, ou preto, ou malhado, portanto no mundo natural o racismo não existe, foram os homens de má fé que o inventaram. Comenta-se que os imigrantes sujam as paredes com grafiti, e não sei que mais, mas não fomos nós que fomos a África buscá-los? Agora temos que os aturar, é assim mesmo.

A Teresa gosta muito de animais?

Sim, gosto muito de animais. Acho que são seres extraordinários, e mais inteligentes do que muitas pessoas que eu conheço, até na classe política. E acho outra coisa, acho que uma família, tenha ela as características que tiver, se tiver um cão, por exemplo, é uma família muito mais feliz e muito mais rica do ponto de vista emocional, as pessoas têm uma relação muito mais saudável entre elas. Eu acho que um bom cão de companhia é um elemento vital para existir alegria no seio de uma família. Esse é o contributo que os animais nos dão, e é um contributo de grande valor, mas muita gente não percebe isso, nem lhes agradece.

Também já me têm perguntado se gosto de Fado e de Touradas, e a mim faz-me alguma confusão que essa questão seja colocada dessa maneira, porque são duas coisas que em meu entender não têm nada a ver uma com a outra. Eu gosto de Fado, gosto até muito. Há vozes que me fazem vibrar muito intensamente. Há agora aí toda uma geração de gente nova a cantar que é um espectáculo. Gosto, gosto muito de Fado. É a minha alma toda que está ali!

De touradas não gosto, nem sequer aceito que se façam. Porque se fosse só a dança dos cavalos, os passes de capote, as pegas, os pasodobles, até podia ser um espectáculo interessante. Agora as bandarilhas são uma coisa que eu acho perfeitamente estúpida e selvática, e os toiros de morte a mesma coisa. É como a caça. Eu não consigo entender qual é o prazer que um ser humano pode ter em torturar e em matar um animal que não o atacou, nem lhe fez mal nenhum. É estúpido e é bárbaro. Os ingleses, por exemplo, fizeram da caça à raposa um desporto muito chique, mas francamente eu não posso entender, nem sequer respeitar a opinião deles. Qualquer raposa que se preze é mais inteligente do que qualquer Lord inglês, que geralmente faz ponto de honra em ser burro, burro todos os dias, mas quando uma pobre de uma raposita é rodeada por cinquenta cães esfomeados que são deixados, de propósito, dois dias sem comer, aí não há inteligência que lhe valha, coitada. A caça é um desporto de brutos e de atrasados mentais. E até lhe digo mais, eu adorava que um dia aqueles imbecis de casaco encarnado fossem “aspergidos” com perfume de raposa e largados a correr à frente de uma matilha de rottweillers realmente esfomeados. Era o que eles mereciam.
 
Você não faz mesmo cerimónia em dizer aquilo que pensa...


Eu sei que há muita gente que não aceita as minhas opiniões, chamam-me nomes, mas eu estou pouco preocupada com isso. Sou uma humanista convicta, mas por exemplo também não aceito o aborto. Salvo naqueles casos realmente terríveis, que estão consignados na Lei. Mas nunca por razões sócio-económicas. Pois se há tanta gente que adora crianças, e não consegue tê-las, e que gostaria tanto de adoptar uma criança... Não defendo que uma mulher que abortou uma criança deva ser julgada e presa, de maneira nenhuma, o que eu defendo é que o Estado é que tem obrigação de apoiar essas raparigas e essas mulheres, para elas não terem de abortar. As crianças têm de ser defendidas nos seus direitos, isso para mim nem sequer tem discussão, mas eu não acho que isso seja incompatível com os direitos das mulheres, dos quais eu sou também uma defensora intransigente. Não admito que nenhuma mulher, sob que pretexto for, seja discriminada, ou maltratada, ou desrespeitada; isso é uma questão que eu nem sequer admito discutir. Mas também penso que os direitos de uma pessoa adulta não podem “esmagar” os direitos de um ser indefeso, que ainda não nasceu, e que não tem culpa da falta de juízo dos pais. Por isso quando uma rapariga ou uma mulher engravida, e o problema que se põe àquela rapariga ou àquela mulher é ela saber que não tem condições materiais para sustentar e educar aquela criança, ela tem duas opções: ou de alguma forma consegue que alguém a ajude, seja uma pessoa, ou um grupo de pessoas, ou uma instituição, e tem a sua criança, e educa-a conforme puder, ou então, se ela não tem mesmo condições nenhumas, eu penso que ela deve levar a gravidez até ao fim, e dar depois a criança para adopção. Não é uma boa solução, é uma solução que passa por uma grande dose de sofrimento para a mãe, e também para a criança, mais tarde, mas é um mal menor do que a morte. Agora também não aceito que exista pena de prisão para uma mulher que aborta uma criança. Primeiro dêem-lhe condições para ela ter essa criança e a educar dignamente, e depois falamos.
 
Fale-nos de algumas mulheres que considere verdadeiramente admiráveis.

Eu admiro um grande número de figuras femininas da História Universal, mas vou-me reportar só ao século XX. Admiro a Eleanor Roosevelt, a Marlene Dietrich, a Madre Teresa, A Princesa de Gales, a Maria de Lurdes Pintasilgo, A Indira Gandhi, entre outras. Eu não sei se estas mulheres foram perfeitas, não foram, com certeza, porque não há pessoas perfeitas, mas pelo menos foram mulheres que fizeram alguma coisa para melhorar este mundo naquilo que puderam, e é isso que importa, ao fim e ao cabo.

E de crianças, gosta?

Gosto, é claro que gosto! Mas parece-me que prefiro o modelo de criança de há trinta ou quarenta anos atrás. Eu acho que nós éramos mais bem educados. As crianças hoje em dia gritam muito, e eu não tenho muita paciência para as ouvir gritar. Eu acho que nós estamos neste momento a assistir a um fenómeno esquisito que é a social-afirmação retardada dos pais, através dos gritos dos filhos. Há por aí toda uma geração de gente que não tem culpa, com certeza, mas são pessoas que passaram por situações de muita miséria, miséria material, miséria cultural, enfim, todos os tipos de miséria que podem existir, mas que agora ganham um bocadinho melhor, e então a forma que essas pessoas arranjaram de finalmente se “afirmarem” socialmente é permitindo aos filhos que gritem em público de uma forma que eu não acho normal, nem saudável. E toda a gente tem de os ouvir... é um inferno para nós adultos, e é completamente prejudicial e anti-pedagógico para as próprias crianças, só pode ser, mas não se pode dizer nada... eu agora tenho a morar ao pé de mim dois miúdos de sete, oito anos, que passam os dias com pistolas de plástico, aos tiros um ao outro. Pum! Pum! Pum! Pum! E eu pergunto-me: Como é que vai ser daqui a uns anos? Quando um daqueles miúdos tiver acesso a uma pistola verdadeira, vai achar que é a mesma coisa, e vai sair por aí aos tiros, Pum! Pum! Pum! Pum?
 
E sobre a eutanásia, o que é que pensa?

Essa também é uma questão extremamente delicada. Eu fui educada numa perspectiva cristã, católica, que me diz que só Deus é que tem o direito supremo sobre a nossa vida. Mas isto é teoria, porque se eu de repente soubesse que tinha uma doença incurável, se calhar já não via as coisas dessa maneira; eu acho que isso são situações que só quem passa por elas é que sabe, mas acho que só deve ser permitida em casos realmente extremos, e depois de muito bem analisados. Não acho que a coisa possa ser minimamente facilitada, porque então qualquer dia aparece para aí nos jornais um anúncio a dizer: Cientistas americanos provaram que a vida a partir dos sessenta anos deixa de ter qualidade. Traga os seus pais à nossa clínica, para que eles possam ser “adormecidos” com conforto e dignidade. Está a ver? Eram bichas de quilómetros à porta, por causa das heranças... Não pode ser!
 
E sobre a homossexualidade? Já agora…

Eu acho que é tempo de as pessoas, claramente e de uma vez por todas, deixarem de ter preconceitos e comportamentos homofóbicos. Porque não faz sentido. Pois se Miguel Ângelo foi homossexual, Shakespeare foi homossexual, Tchaikowsky e Nureyev foram homossexuais... que é para não enumerar aqui toda a enciclopédia gay, em vários volumes, onde consta a lista dos milhares e milhares de gays notáveis, célebres e famosos que existiram desde que o mundo é mundo, e que aliás são só a pontinha do iceberg... Cá em Portugal é gente da política, gente do desporto, altos dignitários de todas as confissões religiosas, gente altamente colocada no exército, deputados à Assembleia da República, e então quando chegamos às vedetas da televisão... por isso porque é que as pessoas não se deixam de parvoíces, e não aceitam a coisa de uma vez por todas, como uma forma perfeitamente normal e saudável de cada um viver a sua vida? Pois se o Kinsey, no tempo em que fez o trabalho de investigação que fez, que foi um tempo muito difícil para os gays, eram os anos do Mac Carthysmo e da “caça às bruxas”, os gays estavam a ser muito reprimidos, e andavam muito assustados, e mesmo assim o Kinsey conseguiu concluir que uma percentagem de 37% dos homens americanos tinham tido relações homossexuais, e tinham gostado... isto diz tudo.

O próprio Rei David, das escrituras, foi homossexual... está lá, no livro II de Samuel, Capítulo 1, Versículo 26: “Jónatas, meu irmão, amei-te mais do que à mais amável donzela.” Por isso...

E há ainda outro aspecto importante. A mim, que acredito em Jesus Cristo, dá-me que pensar que ao longo de 33 anos de vida ele nunca tenha dito uma única palavra que fosse contra os homossexuais. Existem passagens que são claras censuras às práticas homossexuais no Antigo Testamento, e também nas cartas de S. Paulo, mas esses textos valem só o que valem, que é muito pouco, quase nada. Não são a palavra de Jesus Cristo. Jesus em pessoa nunca dirigiu uma palavra que fosse de censura aos homossexuais do seu tempo, que não deviam ser poucos, num território ocupado pelos Romanos, filhos espirituais dos Gregos. E Jesus Cristo não falou no assunto. Porque seria? Se calhar porque não achava que fosse uma coisa censurável em si mesma. A forma promíscua como algumas pessoas vivem a sua homossexualidade é que pode ser censurável, mas isso também acontece com os heterossexuais. Eu penso que nós todos nascemos bissexuais. Depois ao longo da vida vamos fazendo as nossas opções, e não há que fazer nenhum bicho de sete cabeças por causa disso. Digo-lhe mais: eu conheço homens heterossexuais completamente amaneirados, e conheço homossexuais perfeitamente másculos, por isso você está a ver... eu acho que isso é tudo uma falsa questão.

Tenho aliás duas obras publicadas que são estudos do domínio do homoerótico, tenho mais duas obras de ficção por publicar, também dentro da mesma temática, aceito a minha bissexualidade, pelo menos teórica, como a coisa mais natural deste mundo, e não admito que me chateiem por causa disso. Era o que me faltava!

Já agora acrescento que, em minha opinião, duas pessoas do mesmo sexo devem ter rigorosamente os mesmos direitos legais que duas pessoas de sexos diferentes. Isso é um ponto que eu nem entendo que ainda esteja em discussão. Mas não sou muito apreciadora dos desfiles, e dos prides que se fazem por aí. Não acho que essa seja a melhor forma de os gays lutarem pelos seus direitos. Agora há um facto importante que é a igualdade de direitos. Eu sei da história de um rapaz que foi posto na rua pelo pai, aos 15 anos, por causa disso. Comeu o pão que o diabo amassou, mas com o tempo refez a sua vida, arranjou um companheiro, pagaram juntos a casa onde moravam, mas um dia morreu, e o pai que o tinha posto na rua veio a correr reclamar a herança de um filho que tinha posto na rua e que não via há mais de trinta anos. Sei de outro que estava a morrer num hospital, teve o azar de ter um médico completamente homofóbico, que proibiu as visitas dos não familiares, e ele morreu sem se poder despedir do amigo que vivia com ele há mais de dez anos. Estas situações não podem ser toleradas.

Agora é muito importante que as pessoas não confundam homossexualidade com pedofilia. Eu acho que esse é um problema tão grave, tão grave, que nem sei o que e hei-de dizer. Eu bem sei que não é um problema de agora, é um problema que existe desde que o mundo é mundo, mas nem por isso se torna menos grave. Pelo menos aos meus olhos. Mas gostava de salientar um aspecto: eu sei que há muita gente que imagina que a pedofilia é uma tara própria dos homossexuais. Eu estou farta de ler sobre isso, autores sérios, e posso garantir que não é verdade. Existirão alguns, com certeza. Infelizmente. Mas a esmagadora maioria dos casos que acontecem são situações que ocorrem no interior de famílias convencionais, famílias até aparentemente muito felizes. 70% das vítimas são do sexo feminino, têm entre os 3 e os 14 anos, a grande maioria dos criminosos são homens pertencentes à própria família ou ligados ao círculo familiar; padrastos em primeiro lugar, mas também pais, irmãos, tios, primos, padres, professores, vizinhos, amigos da família. Eu acredito que haja uma infinidade de casos escondidos, porque as crianças não falam, têm vergonha, ou têm medo, e eu penso que na maioria dos casos as próprias mães também não sabem; noutros casos, também por medo, ou por vergonha, ou porque o ordenado daquele indivíduo é o único sustento daquela família, elas calam-se e acabam por ser coniventes com a situação.

Os gays não são nenhuns santos, e infelizmente existem alguns que se dedicam a essas práticas, nós vemos no telejornal que as polícias internacionais têm descoberto alguns sites na Net que são uma vergonha, e já prenderam uns poucos de indivíduos que negociavam com pornografia infantil, e eu acho muito bem que os tribunais os julguem com a máxima severidade, mas eu tenho amigos gays de há 20, de há 30 anos, e ponho as mãos no fogo por todos eles. São pessoas que seriam incapazes de fazer uma coisa dessas. Portanto eu julgo que é muito importante repetir isto: mais de 70% dos abusos sexuais de menores são cometidos por homens heterossexuais contra crianças do sexo feminino. A pedofilia não é um fenómeno que se passe especialmente entre os gays. Também gostava de dizer que não entendo que numa nação como os Estados Unidos a Igreja Católica de Boston tenha comprado o silêncio das famílias daqueles miúdos. Devia haver uma lei que impedisse que essas coisas pudessem acontecer, mas pronto, é a hipocrisia Americana em todo o seu esplendor.

E no entanto eu sou católica. Não simpatizo muito com este Papa, não vou à Missa e duvido da seriedade de alguns padres, mas acho que se a Igreja Católica serviu para os meus pais, também serve para mim. Costumo dizer que a minha religião é a minha consciência. Tenho um grande amigo que é Padre, uma grande amiga que é Freira, acredito em Jesus Cristo, e penso que se toda a gente cumprisse os ensinamentos que Ele deixou, este mundo seria certamente muito melhor. Mas a Igreja Católica que eu vejo à minha volta tem tão pouco a ver com os ensinamentos de Jesus Cristo... e no entanto, com todos os seus defeitos, penso que a Igreja Católica tem feito mais bem do que mal a este mundo. E também não me parece que as pessoas de outras religiões sejam melhores, antes pelo contrário, com excepção talvez dos budistas, mas esses estão lá tão longe... Mas sou uma pessoa que rezo todos os dias, que se calhar é uma coisa rara nos dias de hoje.

Também me parece que a Igreja podia ter tido uma acção muito mais efectiva no combate a todas as guerras que existem no mundo. Era pôr a diplomacia do Vaticano a funcionar a sério. Eu digo isto porque me preocupo com a paz, preocupo-me realmente. Defendo mesmo o desarmamento imediato de todos os países do mundo. Há que destruir todo o arsenal de guerra, de todos os países, no mundo inteiro, e ponto final. Eu não quero saber que haja gente a fazer disso profissão, ou que precise da guerra para ganhar a sua vida. Vão cavar batatas, vão coser sapatos, vão fazer outra coisa qualquer! Eu bem sei que tudo isto é uma utopia, mas é assim, eu acredito mesmo em utopias. Acredito nisso como acredito que este mundo podia ser bem melhor. A pobreza, a fome, o trabalho infantil, tudo isso são fenómenos que eu não consigo entender. Ou melhor, eu entendo, mas não aceito. Eu não posso aceitar que haja tanta pobreza no Brasil, por exemplo, tanta miséria, num país que é tão rico de recursos. E o Brasil é só um exemplo. Eu acho que este mundo é muito rico, e podíamos viver todos em paz e tranquilamente, e se calhar até com algum conforto para todos, se algumas pessoas não fossem tão gananciosas, e se todos os cidadãos do mundo produzissem o mais que pudessem, dentro dos limites das suas capacidades físicas e intelectuais. Porque eu não julgo as pessoas pela profissão que têm. A consideração que tenho por um grande cirurgião é a mesma que tenho por um indivíduo que ande a varrer as ruas, se isso for tudo o que ele for capaz de fazer, e o fizer o melhor que sabe e que pode. Não há funções inferiores na sociedade. São todas necessárias. O que há é pessoas inferiores que cumprem mal as suas funções, ou que vivem à custa do trabalho de outros. Eu considero uma imoralidade que certas pessoas sem mérito tenham fortunas tão grandes como algumas que se vêem por aí. É imoral, e devia ser ilegal. Eu tive um trisavô, que foi o 9º Marquês de Niza, que foi o morgado mais rico de Portugal, e no entanto foi ele o autor da lei que acabou com o privilégio dos morgadios em Portugal, e eu tenho muito orgulho nele, por esse motivo.

Eu não acho que o Estado tenha de ser o dono de tudo, e compreendo que os empresários tenham uma boa parte dos lucros que geraram, é justo que assim seja, e aliás de outra forma deixaria de haver investimento, mas também acho que esses empresários deviam dividir uma parte maior desses lucros com os empregados que trabalharam com eles. É uma questão de justiça. Não há direito que aquele tipo das cortiças tenha aproveitado esta pseudo crise para despedir centenas de pessoas, quando podia perfeitamente ter encontrado outra solução. Aquilo que aquela gente ganhava era uma gota de água na fortuna daquele tipo, que não tinha o direito de os despedir. Foi aquela gente que lhe fez a fortuna, muitos ficaram sem dedos e sem mãos nas máquinas das rolhas. E o governo Pinóquio deixou! É uma vergonha!
E com isto não se pense que sou comunista. Não sou. Nem morta! Não acredito que o comunismo tenha trazido nada de bom à humanidade. Acho mesmo que o marxismo trouxe mais miséria à humanidade do que o capitalismo mais selvagem e mais implacável. Eu não aceito regimes de extrema esquerda como não aceito regimes de extrema direita. Digamos que sou uma humanista, politicamente moderada.

O Hitler matou não sei quantos milhões de pessoas. E o Estaline? E o Mao? E o Pol Pot? Por isso... o que eu sou é uma pessoa que já viu muitos regimes políticos diferentes, uns com mais injustiças do que outros. Assisti ao Salazarismo no seu auge, fui por três vezes à União Soviética, primeiro no tempo do Brejnev, e depois já no tempo do Gorbachov, e a diferença notava-se bem, vivi um ano inteiro em África, na ilha de S. Tomé, vivi nos Estados Unidos, posso dizer que viajei praticamente pelo mundo todo, enfim, já vi muita coisa, e por isso entendo que se podia ir buscar aquilo que cada regime teve, ou tem, de bom, e construir uma sociedade perfeita. E isso só não se faz porque há demasiados interesses, a classe política está metida em histórias nojentas, histórias que se calhar até é melhor nós nem sabermos, e é por isso que as coisas estão como estão. Eu não digo que isso esteja a acontecer especialmente cá em Portugal. É no mundo inteiro. Como é que se admite, num mundo que se quer civilizado, que aqueles indivíduos da Unita e do MPLA tenham posto milhares e milhares de minas em Angola? Então a ONU não sabia? E se sabia, não fez nada para evitar que essas coisas fossem feitas? Então para que é que existe a ONU, não me dirão? Para que é que nós andamos todos a pagar àqueles tipos? E como é que se admite que continuem a existir guerras no mundo inteiro? É porque há muita gente a ganhar dinheiro a vender os armamentos. Tirem-lhes as armas, a todos, que eles logo fazem a paz, que não têm outro remédio. Duas bofetadas e assunto resolvido.

Como se vê, não tenho mesmo problemas em defender utopias. É verdade. Pois se eu até sou monárquica... não faço disso uma luta, nem perco tempo com isso, penso que em Portugal, no momento presente, seria tempo perdido, mas acho que um Presidente, bom ou mau, é um senhor que é sempre provisório. Um Rei é definitivo. Não pode demitir-se das suas responsabilidades. Um Presidente é um senhor que está sentado, a arbitrar opiniões. Um Rei é um homem que, tenha forças ou não tenha, é obrigado a manter-se de pé, na defesa do seu povo. Um Presidente é um homem que é pago para ocupar um cargo. O Rei não é pago. Tudo o que existe é dele, e simultaneamente não possui coisa alguma, na medida em que tudo o que tem pertence ao seu povo. Não tem que ter privilégios, nem os quer. Um Rei nasce para servir um povo, é educado para isso desde muito pequeno, sabe que nem a sua própria vida lhe pertence, e sabe que a História um dia lhe irá pedir contas de tudo aquilo que fez. Nós em Portugal tivemos alguns maus Reis, é verdade. Mas também tivemos óptimos Reis. E Presidentes?

Nós em Portugal conseguimos acabar com a inquisição em 1821, e na altura o Cardeal Patriarca de Lisboa, que era um tal de D. Carlos da Cunha, parece que se fartou de espernear. Acabámos com a escravatura em 1859, contra os interesses de muitos que desumanamente compravam e vendiam pessoas como se fossem gado. Acabámos com a pena de morte em 1867. E tudo isto foi feito ainda durante a Monarquia, não precisámos da República para fazer nada disso, pois não? Então? Nós vemos o que se passa com a família real inglesa, e sabemos porque é que eles lá têm aqueles problemas todos, não vale a pena falar de coisas tristes. Mas as democracias mais estáveis da Europa são monarquias. Os Belgas não gostam do seu Rei e da sua Rainha? E os Espanhóis? E os Holandeses? E os Noruegueses, os Suecos, os Dinamarqueses, os Gregos, os Luxemburgueses, os Monegascos? E esses povos não são mais inteligentes nem mais trabalhadores do que nós, mas no geral vivem bastante melhor do que nós. E eu sei porquê. É porque têm uma estabilidade política e social em termos das suas referências ancestrais, uma estabilidade que numa República nunca pode existir. Porque numa República não há referências de ancestralidade, qualquer pessoa pode ser eleita. E mais, mesmo o 25 de Abril, se Portugal fosse uma Monarquia, nunca se teria dado, não teria sido necessário, porque nunca o Salazar teria chegado ao despotismo a que chegou. Um bom Rei tê-lo-ia demitido logo a seguir à Segunda Guerra Mundial.

É claro que existem muitas Repúblicas onde as pessoas parecem gostar do regime que têm, mas isso a mim não me convence muito.

A França é um país que tem uma história que eu estou farta de dar voltas à cabeça, e não consigo compreender. Eles tinham um Rei que até se estava a tentar redimir dos erros dos antepassados, e cortaram-lhe a cabeça. A seguir puseram lá um louco furioso, e como não gostavam de Reis, fizeram dele Imperador. Um Imperador que para além de ter vivido com um fausto que tocava as raias da insanidade, foi um dos maiores facínoras da História Universal. Depois deportaram-no, envenenaram-no... Eu não percebo.

A Itália também tinha um Rei que simbolizava para eles o fim do Duce e a viragem da guerra, e mandaram-no embora, não o quiseram. Eu conheci o Rei Umberto, enfim, não muito bem, mas conheci, acho que não tenho o direito de o julgar do ponto de vista político, e parece-me que os italianos também não têm, pois se ele esteve lá meia dúzia de dias... mas como pessoa era um homem encantador.

A Alemanha é um caso muito especial. Acabaram com os Habsburgos, fizeram a guerra, perderam a guerra, fizeram o muro, demoliram o muro... enfim...

Na Rússia o Czar não teve sensibilidade nem teve visão para aquilo que eram as necessidades do seu povo, fez asneira atrás de asneira, e pagou muito caro por isso. E os que vieram a seguir? O Estaline? Nem vamos falar nisso. E o Khrushchev, aquele que bateu com o sapato em cima da mesa durante uma sessão das ONU, e que esteve quase a provocar uma guerra atómica? E o Brejnev, a corrupção, a miséria? Foram soluções melhores para o povo russo? É por isso que eu defendo que como sistema uma Monarquia é melhor do que uma República, e funciona melhor.

Quem são as figuras que a Teresa mais admira, da história da humanidade?

Essa pergunta é muito difícil... há várias, mas reportando-me só à história mais recente, talvez seja o Nelson Mandela, ou o Gandhi... o Gandhi foi uma glória imensa para a humanidade!

Teresa, o que é para si uma nação civilizada?

Para mim o grau de civilização de um povo não se mede pela sua riqueza. Se assim fosse, os Estados Unidos, por exemplo, teriam de ser considerados o País mais civilizado do mundo. E não são. Os Estados Unidos não são um país civilizado porque eles têm por lá tarados enraivecidos que pegam em metralhadoras, e entram em escolas ou em restaurantes, e matam dezenas de pessoas, e têm miúdos perturbados que chegam aos Liceus e matam dezenas de outros miúdos, e têm psicopatas e serial killers, e têm a pena de morte, e têm aquelas seitas religiosas esquisitas, a mim houve um pateta qualquer que me disse uma vez que Jesus Cristo enquanto esteve na terra andou a visitar o Continente Americano, porque eles acham que são o umbigo do mundo, e que nós todos temos de girar à volta deles, e têm racismo como eu não pensava que ainda existisse à face da terra, e têm uma coisa que eu considero outra aberração, que é que qualquer “borra botas” que tem meia dúzia de empregados já acha que é “dono” deles. O maior prazer que um Americano pode ter é poder dizer a alguém “You’re fired!” Ora isto não é saudável, acho eu, nem normal. Eu vi por lá uma madame que tinha um David na sala, trazido de Florença, mas quando recebia visitas tapava-lhe o pirilau com um bocado de tule. Não é de morrer a rir? Sobretudo os Americanos não têm uma estrutura social que dê felicidade às pessoas. Eu senti as relações sociais e familiares dos Americanos muito superficiais, e muito de fachada. E eu conheci isso por dentro, de uma perspectiva completamente familiar, não foi como turista... e também vi gente a dormir na rua, em cima da neve, no centro de Manhattan. Por isso eu não posso considerar os Estados Unidos um modelo de civilização. Eu estive uma boa temporada em Los Angeles, e só tenho a agradecer a hospitalidade que recebi, que excedeu em muito tudo aquilo que eu poderia esperar, e a temporada que passei lá foi uma das melhores experiências da minha vida, e não quero parecer mal agradecida, mas também não posso deixar de dizer que há aspectos na mentalidade Americana que eu não posso compreender nem aceitar. E posso dar um exemplo. Eu conheci muito bem o Amadeo Curcio, vivi meses em casa dele. O Amadeo Curcio foi realizador e produtor de Cinema, e conheceu muito bem a Marilyn Monroe, foi ele o Produtor Executivo do “Goodbye Norma Jean”, e parece que a Marilyn dizia que Hollywood era um lugar onde o corpo de uma mulher podia valer um milhão de dólares, e a alma dela valer 50 cêntimos. Eu não percebo isso. Não percebo que um Presidente como o Clinton, que se não tiver tido outros méritos, pelo menos teve o mérito de ter conseguido manter a paz neste planeta, o que não é dizer pouco, quase tenha sido deposto por causa de uma aventura com uma mulher... havia de ser giro, aqui na Europa... quer dizer, eu acho que se ele tivesse roubado o Estado Americano, estava bem, isso era uma razão de peso para o demitirem, agora por causa de umas brincadeiras que o rapaz andou a fazer por lá, e não violou ninguém, nem coisa nenhuma, foram só uns bocadinhos bem passados que ele passou... isso para mim é tão incompreensível...

E no entanto eu gostei imenso de conhecer os Estados Unidos tão bem como conheci, agora constato que não é uma civilização perfeita, pelo menos para o meu gosto.

Depois há a China, que parece que está a expandir-se pelo mundo inteiro, e no entanto os chineses são um dos povos mais infelizes do mundo.

A civilização também não se mede pelo desenvolvimento tecnológico. O Japão deve ser o país mais avançado do mundo, do ponto de vista tecnológico, mas depois eles têm um sistema social que é tudo menos civilizado. Um bom marido japonês é um marido que não está em casa mais de seis horas por dia, só para dormir e sair a correr, porque o resto do tempo está ao serviço da empresa. E as relações familiares, onde é que ficam? Eles obrigam os miúdos pequenos a um esforço escolar que é de uma crueldade desumana, e ostracizam os que levam mais dois segundos a aprender uma matéria. Isto é civilização? Não é.

Países civilizados, para mim, talvez sejam os escandinavos. Eu pelo menos vim de lá completamente apaixonada por aquela gente. E não vi delinquentes, nem vi mendigos, mas também não vi sorrisos hipócritas. Vi crianças felizes e tranquilas, vi pessoas velhas tão bonitas... pessoas com uma expressão de quem é completamente feliz... e isto para mim é que é índice de civilização.

Veja-se a lição de tolerância e de grandeza interior que o Príncipe Haakon da Noruega deu ao mundo inteiro! Ele gostou daquela rapariga, que parece que na sua juventude fez assim umas asneirolas, mas ele gostou dela, e não quis saber de mais nada, casou com ela, soube pôr os sentimentos no seu devido lugar, porque não há nada no mundo que valha mais do que o amor. Ele se calhar podia ter mentido, mas preferiu enfrentar a verdade, enfrentar a oposição dos sectores mais conservadores, e ganhou, porque o perdão, a compreensão, o amor, são sentimentos nobres que ganham sempre à mesquinhez. E os noruegueses compreenderam e aceitaram isso, porque um amor genuíno merece sempre ser aceite. Já o Rei Carlos Gustavo da Suécia, esse também casou com uma senhora muito ajuizada, isso sim, mas que não tem sangue real, e veja-se a loucura que os suecos têm pela Rainha Sílvia! E as outras casas reais deviam fazer a mesma coisa, porque os reis são pessoas como as outras, e também precisam de amar e de ser amados. Quando casam por razões de estado dá asneira, como aconteceu em Inglaterra. Mais valia terem deixado o Príncipe Carlos casar com a mulher de quem ele sempre gostou, não era?

Bom, e para terminar, o que é que me diz sobre Timor?

Eu acho que Timor é uma das nossas maiores vergonhas nacionais. E acho que os timorenses são uns santos. Pois se Portugal lhes fez aquilo que fez... porque Portugal tem culpa do que aconteceu em Timor Loro-Sae, tem sim. Os indonésios estão-se nas tintas para os Direitos Humanos, mas Portugal não tem essa desculpa. Portugal tinha outras responsabilidades, e teve muita culpa. E os timorenses perdoaram-nos, e ainda gostam de nós! Eles são os últimos santos à face da terra, e o Xanana Gusmão é um dos maiores heróis desta geração, eu não tenho dúvida nenhuma sobre isso.

A Teresa decididamente gosta mesmo de heróis...

É verdade. Sou como o Príncipe Haakon. Também sou uma romântica.


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